- 3 de janeiro de 2025
Foto: Saidu Bah/AFP
Em sua pequena oficina em Freetown, o estudante de engenharia James Samba mexia com baterias e peças elétricas que ele esperava que pudessem ajudar a limpar o sistema de transporte público poluente de Serra Leoa.
O horário de pico nas principais cidades do país da África Ocidental é uma mistura frenética de micro-ônibus, ciclomotores, táxis compartilhados e veículos de três rodas conhecidos como “kekehs”, cada um deles lançando emissões tóxicas na atmosfera.
Samba disse que seu tio morreu de uma doença respiratória após anos respirando fumaça de escapamento nas estradas, o que estimulou o jovem de 23 anos a desenvolver seu próprio modelo de kekeh elétrico.
Montado com sucata reciclada e alimentado por baterias, o veículo rosa de quatro rodas agora percorre as ruas da capital.
Embora o projeto ainda esteja em sua fase inicial, Samba pretende oferecer uma alternativa ecológica aos modelos tradicionais movidos a combustível.
“Eu queria evitar que outras pessoas morressem de doenças pulmonares e respiratórias devido à poluição do ar […] fabricando um protótipo de veículo elétrico”, disse Samba.
Em todo o mundo, estima-se que 4,2 milhões de mortes prematuras por ano sejam atribuídas à poluição do ar, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), sendo que os países de baixa e média renda são os mais afetados.
As emissões dos veículos também são um dos principais contribuintes para a mudança climática.
Como em grande parte da África Ocidental, longos engarrafamentos nas principais cidades de Serra Leoa e veículos com manutenção precária e escapamentos ineficientes agravam o problema das emissões.
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP, na sigla em inglês) afirma que, em 2021, a poluição do ar por partículas finas matou 1.200 pessoas em Serra Leoa, um país com 8,5 milhões de habitantes.
Samba se aventurou pela primeira vez na engenharia quando construiu uma cadeira de rodas elétrica para seu tio, que há muito tempo tinha dificuldades para acessar o transporte público.
Desde então, ele criou sua própria empresa, a Sierra Electric, com o objetivo de fabricar uma frota de kekehs movidos a energia solar e veículos elétricos para deficientes físicos.
Sem os meios imediatos para cobrir os custos de produção, Samba fez uma parceria com a start-up NEEV Salone para desenvolver um kekeh alimentado por um painel solar no telhado.
A empresa sediada em Freetown já tem uma frota de mais de 100 triciclos solares, três estações de recarga e locais de troca de baterias para os clientes, de acordo com a cofundadora e diretora de operações Emmanuella Sandy.
“Nossos produtos de e-kekeh estão prosperando. Trocamos baterias para reduzir o tempo de espera dos passageiros comerciais e treinamos 60 estudantes universitários do departamento de engenharia mecânica na montagem e manutenção de veículos elétricos”, disse ela.
O desenvolvimento de veículos elétricos enfrenta vários obstáculos em Serra Leoa, onde a rede elétrica nacional sofre de subdesempenho crônico e interrupções frequentes, além de uma estação chuvosa de seis meses que prejudica o funcionamento dos painéis solares.
Pouco mais de 20% das residências têm acesso à eletricidade por meio da rede nacional ou de mini-redes, de acordo com um relatório deste ano do Banco Mundial.
A NEEV Salone alterna entre energia solar, geradores fora da rede e a rede nacional para manter o abastecimento de seus pontos de recarga.
Samba diz que os kekehs solares são mais baratos de operar do que as alternativas movidas a combustível, pois os motoristas enfrentam custos de manutenção mais baixos e não têm conta de combustível.
O menor dos kekehs solares da NEEV Salone é vendido por 120.000 novos leones (cerca de R$ 32.292), um preço alto para quem vive em um dos países mais pobres do mundo.
Apesar do custo, alguns motoristas já se converteram à energia renovável em face do aumento dos preços dos combustíveis.
“O triciclo solar é confortável e um negócio lucrativo. Não me preocupo mais com a escassez de combustível no país”, disse o motorista Thomas Kanu, de 25 anos.
“O kekeh solar é bom para os negócios e para o nosso meio ambiente.”
Reportagem traduzida do original em inglês, assinado pelo jornalista Saidu Bah, da AFP.
Fonte: Alma Preta